Durante décadas, milho e sorgo ocuparam um papel secundário na agricultura brasileira. Utilizados principalmente para consumo interno e alimentação animal, eram vistos como culturas complementares dentro dos sistemas produtivos. Hoje, porém, a realidade é outra.
Essa transformação foi o tema da palestra magna do Circuito SRP – Milho: Estratégias para Proteger a Rentabilidade no Campo, realizada no dia 17 de junho, o Parque Ney Braga, conduzida por Paulo Bertolini, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho).
Ao apresentar a evolução das duas culturas nas últimas décadas, Bertolini destacou como milho e sorgo deixaram de ser considerados o “patinho feio” da agricultura para se tornarem importantes motores de geração de renda, energia, exportações e desenvolvimento econômico no Brasil. “Hoje o milho e o sorgo geram alimento, proteína animal, energia, exportações e desenvolvimento para o Brasil”, enfatizou.
Uma transformação impulsionada por tecnologia e inovação
Segundo os dados apresentados pela Abramilho, até a década de 1990 o milho e o sorgo possuíam papel secundário em comparação a outras culturas, com baixa produtividade, mecanização limitada e pouca relevância comercial no mercado internacional.
Nas últimas décadas, entretanto, a incorporação de tecnologias como biotecnologia, agricultura de precisão, plantio direto e gestão profissional transformou completamente esse cenário.
Entre 1970 e 2026, a área cultivada com milho no Brasil passou de aproximadamente 11 milhões para 22 milhões de hectares. No mesmo período, a produção saltou de 19 milhões para cerca de 140 milhões de toneladas, crescimento superior a seis vezes.
A produtividade média do milho brasileiro também apresentou forte evolução, passando de 30,7 sacas por hectare na safra 1990/91 para 107,7 sacas por hectare na projeção para 2025/26.
O milho se tornou um dos pilares da economia agroindustrial
Bertolini destacou que o milho deixou de ser apenas uma commodity agrícola para assumir papel central em diversas cadeias produtivas.
Atualmente, o cereal é utilizado na produção de alimentos, proteína animal, etanol, ingredientes industriais, bebidas, biocombustíveis e diversos outros produtos.
O consumo interno brasileiro está fortemente ligado à produção de proteínas animais. Dados apresentados pela Abramilho mostram que aves e suínos estão entre os principais destinos do milho consumido no país.
Além disso, o avanço da indústria do etanol de milho abriu uma nova fronteira para o setor. As projeções indicam crescimento acelerado da produção nacional, com expectativa de alcançar 15,2 bilhões de litros na safra 2025/26, fortalecendo a participação do agro na transição energética brasileira.
De importador a grande exportador mundial
Segundo os dados históricos apresentados, o país deixou de ser importador de milho para se consolidar como um dos principais exportadores globais do cereal.
O crescimento da produção, aliado ao avanço tecnológico e à expansão da segunda safra, permitiu que o Brasil ampliasse significativamente sua participação no comércio internacional.
Entre os principais destinos das exportações brasileiras de milho em 2025 estão países como Irã, Egito, Vietnã, China e Arábia Saudita.
O potencial do sorgo ainda está crescendo

Se o milho já se consolidou como protagonista, o sorgo surge como uma das grandes oportunidades para os próximos anos.
A apresentação mostrou que o Brasil deve alcançar produção superior a 5 milhões de toneladas na safra 2025/26 e já figura entre os maiores produtores mundiais da cultura.
Utilizado principalmente na alimentação animal, o sorgo apresenta vantagens agronômicas importantes, especialmente em regiões sujeitas a restrições hídricas e em sistemas de segunda safra.
Segundo Bertolini, a abertura de novos mercados, o crescimento da demanda internacional e o desenvolvimento de aplicações industriais criam condições favoráveis para a expansão da cultura no país.
Estudos apresentados durante a palestra indicam que o Brasil possui potencial para atingir cerca de 15 milhões de toneladas anuais de produção de sorgo, impulsionado pelo aumento da área cultivada e pelos ganhos de produtividade proporcionados pelas novas variedades disponíveis.
Ao encerrar sua participação, o presidente da Abramilho reforçou que o futuro de milho e sorgo está diretamente ligado à capacidade de integrar tecnologia, sustentabilidade, produtividade e abertura de mercados.
A evolução dessas culturas mostra como inovação e gestão podem transformar atividades antes consideradas secundárias em importantes vetores de geração de renda para produtores, cooperativas, agroindústrias e para a economia brasileira.